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[Segunda-feira, Janeiro 09, 2012]
Antes do fim
Não uso fita métrica.
Nem discuto relacionamentos.
Observo vazios, preencho espaços,
enquanto vivo o momento.
Mas recuso-me a viver medindo abraços.
A falta deles é quem me diz adeus,
Com ares melancólicos
E muito antes do que o teu.
por Ká * 7:57 PM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Janeiro 04, 2012]
Segunda pele
Mulheres têm essa relação multifacetada com lingerie, tão íntima e pessoal quanto nosso próprio corpo, numa variedade de cores, tamanhos, materiais, funções e modelos. Embora ninguém a veja, sabemos que ela está lá, protegendo as partes mais escondidas, enfeitando com flores, laços e até pedrinhas que iluminam onde muitas vezes a escuridão prevalece. Algumas preenchem decotes ou puxam nos lugares certos. Outras, como o batom nos realça os lábios, sutilmente nos aprimoram as carnes, as formas, que trespassam o que diabos estivermos vestindo, despertando olhares, entortando pescoços. São as melhores.
Esse tipo de lingerie veste o corpo e deixa rastros em nós mesmas. Mais do que melhorar o que já temos, nos muda o semblante, o andar, a jogada de cabelos, a cruzada de pernas. É como se o poder desses pequenos pedaços delicados de pano, além de atiçar o olhar alheio, ainda nos fizesse aflorar mais nossa sensualidade. Como se guardássemos um segredo precioso e para raros observadores, enquanto nos divertimos na embriaguez do pelo roçando em seu tecido fino, delicado. Um ritual que antecede até mesmo as maravilhosas preliminares.
Eis que, cá estava eu pondo ordem na gaveta mais bonita e cheirosa do quarto, e peguei-a pelo laço negro. Visto que tanto mudei, aquela pequena calcinha provavelmente adquiriu outro sabor, assim como eu. O bom de investir em boas lingeries não é posar para o espelho, admirando-se na solidão do quarto, mas tê-las inteiras para quem nunca as viu – pensei alto. Porque linda e inédita tenho que ser eu.
por Ká * 11:13 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Dezembro 26, 2011]
Embriaguez
Que o amor embebeda, não tenho dúvida. Embriaga, diluindo o bom senso em gotas de saliva, em gotas de suor. Ah, meus caros, eu nem sei de quantas gotas se fazem um amor.
Só sei que sou feita de desejos; desses, aqueles outros. E todos desembocam naquele rio que deságua no abraço do moço que me desarma sem mal se aperceber do próprio feitio.
Que tudo seja eterno nesse pequeno espaço de tempo. E se acabo, visto que sou finita, que eu permaneça em sorriso - seja em versos ou em fotografias em preto e branco.
por Ká * 3:32 AM
Fala, criatura!:
[Domingo, Dezembro 11, 2011]
Subjetiva
O amor acontece no acaso, no esbarro, na coincidência. Não se planeja o amor. Não se conhece sua arquitetura, seus meandros, seu mapa. Entretanto, é possível planejar-se, cuidar de si, preparando-se para acasos (bons ou ruins), aprendendo a diferenciar o joio do trigo, a eleger para si o que faz bem, o que descomplica a vida, tornando-a menos dura.
É preciso saber a pôr pontos finais, retirar-se de cena, assim como deixar-se ir, correr riscos. Muito a ver com maturidade, esse exercício não tem fim, aprende-se sempre, aperfeiçoamo-nos.
Cheio de subjetividade, o amor arrebata e, de longe, o percebemos sem sabermos explicar que é ali onde devemos ir. Porque tudo fica mais claro quando nos elegemos como prioridade. Caso contrário, nunca seremos parte das prioridades de alguém.
por Ká * 10:57 AM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Dezembro 07, 2011]
Cegueira
Há pessoas que não se enxergam. Não falo de gente que se acha demais ou de menos. Mas de pessoas que não vêem os próprios defeitos, qualidades, limites. Não entendem os próprios sentimentos nem os dos outros. Vivem debatendo-se numa espécie de “extraordinário mundo de Jack”, onde insistem em proclamar seus discursos para ninguém, aplaudindo-se sozinho. Atropelam não somente a si mesmo, mas quem os rodeia, tratando como ataque tudo e qualquer coisa que saia do seu critério limitado, analisado ao bel prazer.
Elegi o silêncio. Distancio-me, saindo à revelia de meus próprios sentimentos. Porque a pior cegueira é aquela de quem não quer ver: a si mesmo.
por Ká * 6:27 PM
Fala, criatura!:
[Quinta-feira, Dezembro 01, 2011]
A festa é de quem?
A festa é sua, meu amor, sorria? É a lógica do “acredite em sua própria mentira”. Nem minha, nem sua, nem do seu vizinho, meus caros. Certamente, é a da Destaque Produções.
Em Fortaleza, eles fizeram uma Cidade Fortal, distante, seleta, apenas para quem de fato quer participar da “festa”. A cidade segue seu caminho, com teatro, cinema, escola, trabalho, bares e restaurantes. Aqui, esse ar provinciano que ofu...sca a beleza de Natal, não deixa que o cidadão comum siga com sua vida, quer queira ou não ser um “folião fora de época”.
Fecham-se estabelecimentos, ruas, tiram semáforos, mudam a lógica de uma capital que tenta, mas não progride em prol de seus habitantes, apenas de uma diminuta parte. Gabam-se que geram empregos, mas não se contabiliza gastos, prejuízos, incômodos, pra quem merece e paga pela paz de ir e vir de sua casa, seu trabalho, seus afazeres. Falam que é cultura, mas o que disseminam é uma festa plastificada que tem o intuito de homogeneizar a variada e rica cultura de nosso país. Toda micareta é igual em qualquer canto, as cores, as roupas, a música, as ridículas “celebridades”.
Recuso-me a chamar isso de carnaval fora de época. Isso é carnaval totalmente fora do bem maior: o coletivo.
por Ká * 2:29 PM
Fala, criatura!:
[Sexta-feira, Novembro 11, 2011]
Changes
A maturidade traz mudanças. A maioria delas, boas. Sobretudo no que diz respeito a como lidar com o mundo e consigo mesmo. Uma das coisas que eu sabia que ainda não conseguia digerir bem era a morte. Sempre significou uma dor inexplicável para mim, a qual nunca soube como saná-la.
Hoje tive que dar uma notícia triste e dolorosa para a pessoa que mais amo nessa vida: minha mãe. Quem a conhece sabe o misto de força e bravura que ela é. Mas nessas horas, a fortaleza abre a guarda, deixa-se levar pela fragilidade, a vulnerabilidade do sentir dor. Eu quase desabo quando acontece isso. Consolar minha mãe é quase contra as leis da física, parece tudo ao contrário, ao avesso. Mas não somos nós que decidimos a ordem das coisas. É simplesmente a vida, que parece brincar com nossos instintos e conceitos.
Eis que me deparei com outra mulher diante do espelho. Eu não pensei em minha dor. Eu pensei em como encaminhar as coisas, comprar passagens, arrumar mala, fazer ligações. A praticidade me espantou. Afinal, eu via a morte de uma outra forma?
Quando a coisa passa, é que sentimos a fina agulha da falta, da saudade e do amor espetando o peito como sádicas crianças inquietas.
Tremi. Chorei.
por Ká * 12:26 AM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Outubro 10, 2011]
A cena
Depois de tantas boas-vindas e despedidas em minha vida amorosa, foi algo quase surreal ser protagonista do seguinte cenário: ele a me esperar no desembarque entre sorrisos nossos que iriam permanecer ali, sem data para serem interrompidos.
por Ká * 5:24 PM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Setembro 28, 2011]
Passos
Começos. Ao invés de imaginar tropeços, sempre os enxergo com a coragem de quem corre por um novo percurso: ciente dos passos, mas admirando o desconhecido - sempre levando a própria bagagem nas costas.
Há quem sinta receio. Eu somente sinto.
por Ká * 11:24 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Setembro 26, 2011]
Incansavelmente alcançável
A vida é assim: cuide da sua, de si mesmo, modere a ansiedade e a expectativa, viva o momento. Quando a gente faz o que tem que ser feito para nós mesmos, parece que tudo se encaixa e então, com você pronto, vem algo bom e você o recebe como uma enzima que digere a molécula certa, no lugar certo, na hora exata. É como se tudo fluísse. É tão lógico quanto 2 + 2 = 4.
Uma coisa que muitas vezes confundimos é que precisamos cuidar de si para nós mesmos, não para os outros. A intenção é bastar-se. Se for verdade que ninguém nasceu para viver sozinho (cujos argumentos geram controvérsias), inegável é o fato de que é preciso estar bem consigo mesmo para ter a pretensão de estar bem com alguém. Muitas vezes o processo é invertido e a vida torna-se um inferno, é inevitável. Cobra-se do outro o dever de casa que deveríamos ter feito antes de se propor uma relação. A injustiça não pára por aí. Vem juntamente a cobrança de um dedicado amor eterno por alguém que você nunca foi de fato, porque estava muito empenhado em mostrar-se encantador, mas não em construir-se.
Essa sinergia entre seu próprio bem estar - você de bem consigo mesmo - e o mundo ao redor, existe, sim. É preciso aprender o modo de como lidar com ele, afinal de contas. Não é coisa das mais simples bastar-se quando desejamos tantas coisas ao mesmo tempo. É uma busca diária, eterna, essa da chamada plenitude. Mas tenho aprendido que é bom começar pelo mais alcançável – eu mesma.
por Ká * 7:10 AM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Setembro 21, 2011]
Incomplexa idade
Por que será que nivelamos por baixo? Autodefesa, calejo, cinismo, amargura? Coisas ruins costumam chegar fácil, as encaramos, acreditamos nelas, as resolvemos. Coisas boas nos causam dúvidas, questionamentos, ceticismo, desconfiança. Elogios nem sempre são bem aceitos, achamos que estão fazendo graça conosco, que é apenas educação ou simplesmente que se fala para todos.
Por que é difícil aceitar de braços abertos coisas que nos fazem bem? A gente se protege delas para não se decepcionar depois, numa pretensa antecipação, atitude de adivinho, como se, fazendo isso, evitássemos o pior. Evitamos o encanto para não desencantarmos. Pior, acabamos por aproveitar mal esses momentos distintos e tão almejados. É um paradoxo: os queremos, desejamos, e, quando os temos, nos travamos, duvidamos deles. Afinal, se nada pode ser tão bom, por que nos damos o trabalho de sonhar com o inalcançável? Viva sua vida cinicamente e pare de atormentar quem sorri com coisas aparentemente sem importância para esse mundo racionalizado.
No decorrer da idade, acho que compreendemos que ser complexo é cansativo e nos atrasa a vida. Só quero o que me faz bem - simples assim. O resto é tese para as ciências humanas. E eu nunca almejei ser objeto de estudo de ninguém.
por Ká * 6:19 PM
Fala, criatura!:
[Sábado, Setembro 17, 2011]
Na cabeceira da própria mesa
Algumas pessoas têm dificuldade de ficar felizes pelas outras. Nem que sejam seus colegas, parentes, amigos, amores. Simplesmente não enxergam o mundo além de si mesmo, suas vontades, planos, paixões. Certamente deve ser a forma mais perversa de egoísmo. Eu custei a entender isso porque as vezes que esse sentimento chegou até mim, já foi doloroso o suficiente. E entendê-lo dói muito mais, nem tanto porque machuca, mas porque vemos uma face do outro com tanta distância que poderia chegar ao rompimento total. E todo rompimento dói. Sobretudo quando o lado feio e triste de quem gostamos vêm à tona.
Toda atitude que tomo é por minha própria conta. Eu escolho, eu pago as conseqüências. Se algumas vezes isso é tomado como arrogância ou egoísmo, digo-lhes que é exatamente o contrário. Eu tiro a responsabilidade dos ombros alheios e tomo para mim. Isso evita que eu faça cobranças depois ou aponte culpados por algo que eventualmente não saiu como planejado. Não, meus caros, desse mal eu não morro.
O medo da morte deve ser apenas a ansiedade de fazer tudo o que se tem direito antes dela chegar. É viver desejos, paixões. Se algo não cai bem, retire-se, busque. Porque, de repente, do nada, tudo acaba. Na maioria dos casos não há tempo de dizer nem tchau. O grande tchau precisa vir sendo dado desde sempre, quando se dá conta de quem pode ser - e que ninguém diga o contrário.
Não levarei os desejos alheios tão a sério quanto os meus, nunca. Cada um construa e enxergue seus próprios motivos para sorrir. Se cada um fizesse isso, haveria menos cobrança e mais bem-estar pelo sorriso alheio. Há coisa menos egoísta do que isso?
por Ká * 6:59 AM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Setembro 14, 2011]
O bêbado e o equilibrista
Dizem que o álcool disfarça a timidez. Também que aumenta a libido, dá euforia, faz a gente ficar mais falante, sociável, e até serve de paliativo para tristezas do coração ou estresses do cotidiano. Comprovei todos esses efeitos em algum momento de minha vida, confesso. E, pra quem costuma falar pouco, faz uma diferença danada. Se a princípio relaxa, a euforia vem em seguida, nos colocando facilmente um sorriso não muito seletivo no rosto. Não é condenável, apenas humano.
Entretanto, o relaxamento e a euforia vindos de modo natural, provocados diretamente em você, sem ajuda de nenhuma substância além de suas próprias, têm conteúdo, peso, e conseqüentemente, mais durabilidade. Se o efeito do álcool é fugaz , o efeito natural tem a estabilidade exata de seus sentimentos. E você que os equilibre. Essa empolgação, as borboletas no estômago, ou esse sentimento de paz e tranqüilidade de um monge, descansando-te, tudo isso vem de forma contundente e inquestionável. Quando vem, você sabe e pronto. Jamais duvidará.
Não faço apologia a nada. Nem seria hipócrita ao ponto de tirar os méritos de um bom vinho, uma cerveja geladíssima, uma caipirinha bem feita. Mas é que nas últimas semanas passei a sentir de forma diferente e, de repente, comecei a me deliciar com meus próprios sentimentos. Puros, intactos, verdadeiros. Somente eles, mais nada. Sigo vivendo intensamente, mas com méritos próprios. Eis o motivo do encanto.
por Ká * 1:12 PM
Fala, criatura!:
[Sexta-feira, Setembro 02, 2011]
Caderninho
A gente sempre arranja desculpas para não fazer certas coisas, até mesmo aquelas que gostamos de fazer. Ver aquele filme no cinema, visitar a amiga, dançar mais. Adiamos porque priorizamos as coisas práticas da vida, porque aquele problema não pode ser adiado. Mas seu prazer, sim. E nem sempre conseguimos resolver nada, porque já empurramos outra coisa mais importante na frente e, assim, acumulamos dívidas com nós mesmos.
Em outra cidade, era uma luta para dar um mergulho no mar. Passei meses, quase um ano, sem fazer isso. O caminho era longo, atravessando toda a cidade, enfrentando um trânsito caótico, buracos, poluição visual. Junto com tudo isso, havia a ausência quase absoluta de companhia. Voltando a morar numa cidade menor e mais tranqüila, pensava no trajeto de 550km que eu fazia de carro, anotando num caderninho mental coisas que eu tinha que fazer a partir de então. Uma das notas era isso: ir mais à praia – nem que fosse sozinha.
Não titubeei. Horário vago de pouco mais de uma hora, voei, coloquei o biquíni e em quinze minutos estava frente a frente com ele: o mar.
Que não precisemos estar verdadeiramente impossibilitados de fazer algo para sentir falta, saudade. Façamos o que facilmente nos dá prazer. Já existe em demasia tantas outras que nos é difícil, que nos sai caro. E, muitas vezes, nem é no bolso.
Descompliquemos.
por Ká * 8:43 PM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Agosto 31, 2011]
Vencida
Olhando a penteadeira, entre frascos e potes de cosméticos, encontro dois esquecidos há meses. Presente. Validade vencida. Até quanto tempo depois um cosmético pode ser usado sem causar dano à pele...? – caí em pensamentos. Bonitos e cheirosos, eles me levaram para uma viagem no tempo. Presente de aniversário. Vieram com outros, arrumadinhos numa espécie de ofurô em miniatura, entre fitas e um abraço aconchegante.
Os sentimentos também possuem data de validade? As histórias de amor, de amizade? A gente passa do ponto de reatar laços, ultrapassa os limites das tentativas? Eu sempre achei que uma desistência era puro desperdício de amor. Se ele existe, que aparemos arestas até que nos caiba como uma luva. Ou nos abracemos, escondendo orgulho e razão, para que no escuro de nossos olhos fechados e no cheiro de cada um entrando pelas narinas, menosprezemos qualquer diferença. Eu acreditava nisso.
Mas a verdade é que a gente cansa. O coração cansa. O sorriso desaparece. O brilho nos olhos vai embora. Alguém me disse uma vez que meu brilho tinha desaparecido. E eu fui atrás dele, para bem longe de quem havia me falado tamanha observação cortante. Fui e o resgatei. Sozinha.
Então, perdida entre os aromas, cores, embalagens, eu perguntava-me se o prazo de validade daquele outro amor tinha expirado. “Time is ticking out...”, dizia a música. A mim, me cabe o Presente. E aos presentes antigos e vencidos, a lixeira do passado.
por Ká * 6:52 PM
Fala, criatura!:
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